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  • biancazackk

Conto "Através" - por Mateus Ribeiro

Atualizado: 20 de ago. de 2021

"Agradecemos ao maravilhoso Mateus Marcelini Ribeiro por enviar esse conto tão pessoal e profundo sobre um dos temas mais relevantes atualmente. Lembramos também que o Blog Garotas Pelo Mundo é um reflexo da nossa organização e que temos uma abordagem apolítica e apartidária para a discussão de temas sociais."


 

Fazia muito tempo que eu não visitava meus parentes de Poço Fundo, e eu tinha alguns motivos pra isso. As gerações passaram, e as mudanças do mundo cada vez mais rápidas nos fizeram abandonar o modo antigo de pensar dos nossos pais e avós, valorizando mais as gerações mais velhas do que a dos nossos pais, mesmo sem compreendê-las.

Nos últimos tempos o fim da adolescência me fazia questionar a fundo quais teriam sido os motivos que levaram meus pais, na época em que tinham a minha idade, a deixar sua pacata cidade natal e se aventurarem na vida nômade de bancário do meu pai, sempre seguindo as transferências determinadas pelo banco, permanecendo às vezes menos de um ano em cada cidade. Mas a história dos meus pais começa antes da existência dos meus pais, bem antes da minha existência, e antes mesmo do que a memória alcança.

Alguém ainda se lembra de como era a vida cinquenta anos atrás? Ou o capitalismo industrial conseguiu apagar nosso interesse pelo passado, aniquilar nosso contato com os antepassados?

Minha criação sempre em cidades pequenas, ainda que nômade, me fez pensar que o mundo era algo estático. As cidades pequenas ainda conservavam charretes, cavalos, pessoas olhando pelas janelas, sentadas nas calçadas, portas e janelas sempre abertas, um cão que passa devagar...

Naquele dia, voltar à fazenda trazia de volta essa sensação de que o passado não havia passado. Eu sabia que as cartas estavam guardadas em alguma gaveta, e que a memória da minha tia-avó era tão viva quando as árvores que permaneciam naquela mesma terra há mais de um século. Os cafezais, a casa antiga, ainda que reformada, as montanhas de Minas, os animais, minhas tias-avós que mantinham o espírito juvenil pela deficiência intelectual, pareciam me transportar para a minha infância, e quem sabe, para a infância delas mesmas, que nunca acabava.

Em meio às brincadeiras de criança, o discurso destoante do meu tio-avô que tomava conta da fazenda me trouxe de volta ao futuro distópico do presente:

-Se o Bolsonaro ganhar eu vou comprar uma metralhadora e vou colocar ela aqui na janela!

Era esse um dos motivos pra eu não voltar àquele lugar por mais de dez anos, depois de dormir no colchão que ficava em cima das armas antigas do meu tio-avô, descobertas na hora de arrumar as camas pela minha mãe, entre risos e horrores.

Um homem que bebia cachaça no café da manhã, que cuspia e jogava bitucas de cigarro no chão, não podia ser a minha ligação com o passado. Ou pelo menos não a única.

As histórias de violência do meu avô ficavam imersas numa aura nebulosa, preenchida pelo álcool e os tiros de pistola e de espingarda, mas a minha imaginação viajava muito além, passeando pelas ruas de uma pequena cidade onde não havia telefone, carros, nem muitas casas, e os rios corriam livremente, os trens cruzavam colinas e atravessavam estados, trazendo pessoas de lugares distantes, em longas viagens, sem pressa, sem a confusão do tráfego das rodovias que escorrem sangue, percorrem canaviais intermináveis.

A imagem de minha mãe indo comprar doces na venda não sai da minha cabeça. Não havia embalagens de plástico, apenas sacos de pão, e eu fico me perguntando em que momento, como se as coisas mudassem de uma hora pra outra, e de fato alguma hora isso tem que acontecer, em que momento tudo isso mudou. O plástico que envolve tudo com suas cores mágicas, que oculta os produtos e sua alquimia, hoje me acende um alerta. Abro a embalagem e encontro um chocolate podre. O simbolismo do nosso mundo.

Aquela frase de elogio às armas ainda me soa incompreensível. O que ele queria fazer com uma metralhadora? Ninguém nunca invadira suas terras, nem tentara violentar sua família, mas uma história antiga me fazia pensar que talvez o mundo dos antigos não tenha sido assim tão pacífico, apesar da ausência do plástico. Um mundo transparente, em que tudo se resolvia com tiros e fios de bigode.

Saí para caminhar, enquanto minha tia-avó Vete brincava com meus primos mais novos de pega-pega. Nos seus mais de 60 anos, ela ainda tinha a força de uma criança grande.

As paisagens eram belas, perus, galinhas da angola, muitos galos e galinhas, e os pássaros selvagens conviviam, cantavam, na beira do lago as jaçanãs descansavam. O cafezal se estendia até o horizonte, não muito longe, cercado de morros, mas não de prédios e muros. A calma e o silêncio em harmonia com as vozes de sapos e aves.

Sentei-me na beira do lago de águas tranquilas, tirei os chinelos e mergulhei meus dois pés no contato gelado da água turva que refletia as árvores da margem e um céu de pequenas nuvens esparsas, esparramadas pelos ventos como lençóis estendidos no espaço.

Fechando os olhos, sentindo o movimento quase inerte da água, entrei num profundo estado de contemplação e meditação em que uma figura masculina apareceu atrás de mim. Uma figura familiar, conhecida dos retratos de família em preto e branco, usando um terno velho, espaçoso para o corpo alto e magro, um bigode e o rosto sério, mas agora sereno e tranquilo, quase feliz, se não fosse um ar de preocupação ao me olhar, como se adivinhasse os meus pensamentos. Queria ter conhecido você, meu avô, mas você se foi tão cedo, muito antes que eu planejasse existir. Aquela bala que te atravessou, como pode, num momento tão frágil, tirar uma vida inteira da convivência dos filhos, dos netos, deixar uma esposa sozinha, cuidando do irmão e dos cinco filhos sem ajuda de ninguém, longe dos parentes, tão longe do marido, que agora se perdia na memória. Já se vão mais de quarenta anos, e agora você está aqui, talvez tenha algo para me dizer, nesta terra que um dia foi sua, onde tudo começou, uma vida pela outra. E quando eu esperava que ele fosse feito de um grande silêncio, como nas velhas fotografias, ele deu um passo adiante, como se eu pudesse vê-lo de fora do meu próprio corpo, e encostou a sua mão no meu ombro, dizendo, são coisas de tempos de outrora.

Ao ouvir sua voz, eu abri os olhos e retornei à consciência, percebendo que não havia mais o peso de sua mão sobre o meu ombro, e a sua imagem havia desaparecido, ofuscada pela luz do dia. Mas agora parecia que havia alguém ali me olhando, quem sabe me vigiando. E eu sentia algo no meu peito e nas minhas costas, como uma ferida que se fechava. Agora parecia que aquela bala não me atravessava mais.


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