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A relação das mulheres negras com o movimento feminista

Atualizado: 13 de mai. de 2021


"Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que eu tivesse oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou uma mulher? Eu pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher?" .


O discurso acima foi proferido por Sojouner Truth, como uma intervenção na Women’s Rights Convention em Akron, Ohio, Estados Unidos, em 1851, sendo um marco do que chamamos de feminismo negro. Mas afinal, o que é feminismo negro? Qual a sua importância no movimento? E no que se difere do feminismo branco? Para responder a essa e outras perguntas eu escrevi o texto de hoje .

O feminismo negro nada mais é que uma corrente do movimento que faz um recorte étnico, visando atender as necessidades das mulheres negras, que em alguns aspectos se diferem das brancas. Pautas como a hipersexualização e a solidão da mulher negra são duas de suas principais lutas. A primeira se refere ao esteriótipo de que mulheres negras são mais " fogosas ´´ e seu corpo pode ser considerado um produto. Um exemplo disso é a Globeleza, na qual um mulher negra de pele clara samba semi-nua, tendo seu corpo objetificado. Quanto a Globeleza é válido ressaltar que sempre são escolhidas mulheres de pele mais clara como símbolo sexual, já que com as mais retintas, é mais comum a solidão, que falarei abaixo. Frases como "morena cor do pecado" e " negras tem o corpo quente", remetem a um passado extremamente cruel com as mulheres negras, baseadas no estupro e na desumanização, devendo ser abolidas de nosso vocabulário. Já a solidão, que é o extremo oposto e muitas vezes é esquecida nos debates , é pautada em dados do IBGE; nos quais 56% das mulheres negras nunca namoraram e nem tiveram uma união estável. Esse fenômeno é mais comum em mulheres negras de pele escura, já que por estarem mais longe dos padrões eurocêntricos de beleza, acabam sendo preteridas em relações afetivas, posto que raramente são associadas ao amor. São sempre a "tia da faxina" ou o arquétipo da "tia Anastácia´´, ou seja, alguém coadjuvante, sem sentimentos e que sempre é a legal da turma, mas não é assumida .


A importância do feminismo negro dentro do movimento feminista é justamente dar voz, diversidade e respeitar as individualidades de cada mulher, já que somos diferentes e partimos de pontos de partida distintos, pois enquanto o movimento sufragista lutava pelo voto e por poder trabalhar, as negras estavam sendo desumanizadas no período escravocrata. Ao analisarmos as dificuldades sofridas por alguns grupos, estamos dando voz a todas; já que a misoginia atinge a cada grupo de um jeito diferente.



É necessário que compreendamos que o movimento feminista não é homogêneo, pois vivemos em uma sociedade com desigualdades étnicas, sociais e de gênero . O ponto de partida de uma mulher branca classe média é um, de uma mulher negra é outro e de uma mulher transexual é outro. Nesse sentido as subdivisões do movimento são necessárias para que todas as mulheres se sintam representadas . Atualmente chama-se de feminismo interseccional a corrente que discute esses "pontos de partidas", respeitando assim, suas individualidades. Essa ideia de que somos todas iguais, infelizmente, funciona só no papel, porque mesmo de maneira silenciosa o racismo ainda percorre a nossa mente.



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