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Mulheres na diplomacia e o retrato ainda masculinizado do Brasil para o mundo

Atualizado: 13 de mai. de 2021

Já nos anos 80, o coração tropical de Belchior não aguentava tal política em que os senhores “se sentam à mesa, decidem por nós”, como cantava em “No Maior Jazz”. Ainda hoje, a predominância masculina, associada à baixa representatividade dos grupos sociais na política nacional persiste como desafio — e, na política externa brasileira, não é diferente. Nesse sentido, este texto tem como objetivo analisar a história por trás do documentário “Exteriores - Mulheres Brasileiras na Diplomacia”, dirigido por Ivana Diniz. Publicado em 2018, ele celebra o centenário da participação feminina no Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty).

Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty). Foto tirada do documentário “Exteriores - Mulheres Brasileiras na Diplomacia”.


A partir do documentário, entende-se que a história das mulheres na diplomacia é uma de resistência e combate ao preconceito. Como relata a embaixadora Gisela Padovan, o espaço das mulheres na carreira política não é óbvio, tampouco é visto como direito — ele deve ser, constantemente, conquistado. Quem estreou esta conquista foi Maria José de Castro Rebello Mendes, ao tornar-se a primeira diplomata e funcionária pública concursada do Brasil, 16 anos antes do voto feminino ser nacionalmente instituído. Apesar desse pioneirismo do Itamaraty quanto à participação política feminina, em 1918, o próprio então Ministro de Relações Exteriores, Nilo Peçanha, declarou: “Não sei se as mulheres desempenhariam com proveito a diplomacia, vide tantos atributos de discrição e competência que são exigidos [...] Melhor seria, certamente, para o seu prestígio que continuassem a direção do lar [...]”.

Tal atitude discriminatória não foi a única. Na verdade, o documentário nos mostra que durante o século XX, o sexismo impôs, inclusive, barreiras institucionais às mulheres na diplomacia. Dentre os exemplos citados na produção, tem-se a Reforma Oswaldo Aranha que, entre 1938 e 1954, proibiu que o público feminino exercesse a carreira diplomática. Além disso, já em 1969, o Instituto da Agregação proibiu que casais de diplomatas trabalhassem juntos no exterior. Como consequência, mulheres na carreira abriam mão de seus salários e tempos de serviço para acompanhar seus cônjuges, quando estes serviam fora do país. Essa prática, chamada de agregação, impedia a promoção de muitas diplomatas, pois as limitava a uma escolha entre casamento e profissão. Embora o documentário ressalte que essas formas de preconceito tenham sido legalmente superadas ao final do século passado, o reflexo delas permanece.

Hoje, as mulheres representam somente 23% dos trabalhadores do Itamaraty. Nunca houve uma brasileira que ocupou a Chancelaria ou a Secretaria Geral do Ministério, cargos mais altos da instituição. As embaixadas do país em Washington, Paris, Lisboa ou Buenos Aires também nunca foram chefiadas por diplomatas brasileiras. E, quando se trata de mulheres negras ou membros da comunidade LGBTQIA+, os desafios são ainda mais evidentes. “Exteriores - Mulheres Brasileiras na Diplomacia” celebra muitas vitórias femininas, mas nos introduz aos problemas que ainda devem ser superados. Essas situações, como conta a diplomata Viviane Rios Balbino, refletem uma estrutura social maior, que depende de esforço deliberado para se transformar.

Maria José de Castro Rebello Mendes, primeira diplomata brasileira. Foto tirada do documentário “Exteriores - Mulheres Brasileiras na Diplomacia”.


Felizmente, muitas mulheres esforçam-se para continuar trilhando o caminho de conquistas iniciado por Maria Mendes. Para isso, elas buscam, inclusive, inspirar garotas a seguir esta carreira, como é o caso da campanha #MaisMulheresDiplomatas. Este projeto consiste em curtos relatos de próprias funcionárias do Itamaraty, publicados em forma de vídeos no YouTube. Se, após o documentário, você se interessar mais pelo assunto, assistir a estes vídeos significa conhecer um pouco mais sobre as mulheres que transformam o retrato masculinizado com que o Brasil se apresenta para o mundo através da diplomacia. Para além disso, se você, como eu, gosta de Relações Internacionais e quer desenvolver melhor suas habilidades de negociação e oratória para fazer parte do time de mulheres que compõe o Itamaraty, as simulações da ONU (MUNs) são uma ótima forma de aperfeiçoar essas habilidades. Deixo como sugestão a organização MicroMUN, composta inteiramente por mulheres que visam democratizar tais simulações. Inclusive, gostaria de adicionar e aproveitar para agradecer à MicroMUN, pois foi através de sua Semana de Palestras em celebração ao Dia Internacional da Mulher que pude conhecer o documentário que é tema deste texto: “Exteriores - Mulheres Brasileiras na Diplomacia”.

Por fim, reitero que essa obra é muito inspiradora, pois, através dela pude conhecer as faces que deixaram como legado a possibilidade de seguir carreira diplomática a mim e a tantas outras garotas. O documentário me fez sentir gratidão a quem veio antes e abriu essas portas. Por outro lado, também senti a responsabilidade de contribuir para que a diplomacia e a política externa brasileira representem cada vez melhor a diversidade do nosso país. De modo geral, o documentário nos permite reconhecer que o problema da sub-representação feminina em cargos políticos é antigo, mas, como diria Belchior, “o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

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